quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Ausência por Vinicius de Moraes

Começarei por colocar um poema do poeta que sempre amei. Independente do tempo ele me pertence. Suas palavras foram escritas para mim. Tomei posse de sua existência. Por muitos anos da minha adolescência imaginava poder encontrar Vinicius e quem sabe, ah, quem sabe, inspirá-lo a compor alguns versos de amor. O destino não quis que isto acontecesse porque o tirou de mim bem antes de eu estar adolescente. Quando o conheci em livro tinha um pouco mais de 8 anos. Vão me questionar como uma criança haveria de se apaixonar assim? Pois bem, sempre amei as palavras. Existe algo dentro delas que me transborda e me faz ser além de um ser humano romântico. As palavras, o dom de falar, escrever, expressar sentimentos e emoções que acontecem dentro de nós é divino. Isto sempre me tocou e me moveu. Se algumas vezes me apaixonei, não foi pelo objeto e sim pelas palavras pronunciadas, escritas, sussurradas e algumas no momento de paixão, gritadas. Sei, devemos não somente acreditar no que nos dizem mas, no que fazem, por isto creio que algumas vezes me quebrei. Agora refeita de tantas quedas posso continuar apreciando as palavras mais moderadamente e cuidar para que aquilo que escuto esteja também sendo praticado. Afinal quem só de palavras são os livros nós, seres humanos, vivemos não só delas mas, de atitudes.

Enfim, agora deixo o poema lindo deste homem que não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente mas, que mora em mim em vários lampejos da vida.
Delicie-se

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes

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